António Augusto de Seixas

Zona de identificação

tipo de entidade

Person

Forma autorizada do nome

António Augusto de Seixas

Forma(s) paralela(s) de nome

Forma normalizada do nome de acordo com outras regras

Outra(s) forma(s) do nome

  • Tenente Seixas
  • António Augusto de Seixas Araújo

identificadores para entidades coletivas

área de descrição

datas de existência

1891-1958

história

António Augusto de Seixas foi oficial da Guarda Fiscal tendo residido durante vários anos em Sines. Nasceu em 1891, em Montalegre, e faleceu em 1958 no Hospital Militar em Lisboa. Cedo adere às ideias republicanas. Organiza a defesa e combate a incursão monárquica de Sidónio Pais, às ordens do seu amigo general Ribeiro de Carvalho. É ferido no combate de S.Neutel, em Chaves.
Foi recrutado em 1912 e foi promovido a alferes em 1924 e a tenente em 1928. Tomou parte na defesa de Chaves contra a incursão monárquica de Paiva Couceiro. Durante a sua vida profissional desempenhou funções na fronteira terreste, em vigilância e acção contra o contrabando entre Portugal e Espanha. Foi comandante da secção da Guarda Fiscal de Freixo de Espada a Cinta, Chaves e Gerês. A sua eficiência na vigilância da fronteira permitiu-lhe realizar várias acções de apreensão de contrabando, pelas quais foi louvado. Enquanto permaneceu na fronteira procurou melhorar as condições de trabalho e de vida dos guardas fiscais, cujos aquartelamentos e habitações procurou melhorar. Recebeu mesmo um louvor em 1934 pela acção material e moral que vem desenvolvendo em favor dos seus subordinados. Em 5 de Outubro de 1935 recebeu o título de Cavaleiro da Ordem Militar de Avis, pelos seus esforços no combate ao contrabando.
Em 1932 foi transferido para Safara, no Alentejo, em resultado de uma penalização disciplinar. É na fronteira raiana a sul que o Tenente Seixas, no contexto da Guerra Civil de Espanha, vai desenvolver uma importante acção humanitária. Desempenhou um papel fundamental em 1936, em Barrancos, quando, enquanto comandante da Guarda Fiscal, evitou o massacre de vários republicanos espanhóis em fuga. De facto, permitiu a entrada de refugados espanhóis e a sua permanência ao arrepio das ordens superiores, inclusive da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, ocultando a dimensão do número de refugiados na Herdade das Russianas, assumida por si, inicialmente, como provisória. No entanto, o aumento do fluxo de refugiados, precipitado pelo aumento das perseguições e fuzilamentos em Oliva de la Frontera obrigou o tenente Seixas a procurar juntar o grupo das Russianas ao da Herdade da Coitadinha, para oficializar a sua presença em Portugal. A recusa das autoridades portuguesas levou-o a encetar contactos com as novas autoridades espanholas, de forma a garantir o regresso de refugiados em segurança.
A antropóloga Dulce Simões comprovou a existência de uma proposta do governo português ao governo republicano para o repatriamento dos espanhóis refugiados em Portugal, para o porto de Tarragona. A participação do Tenente Seixas na operação de transporte dos refugiados de Barrancos para Lisboa, coordenada pela Polícia de Segurança Pública no dia 8 de Outubro de 1936, foi o rastilho para a sua posterior penalização. De facto, o tenente Seixas, considerando que os meios de transporte fretados eram insuficientes, providenciou duas camionetas, sendo uma delas conduzida por si próprio, acompanhado pelo filho Amável. No entanto, a operação estava concluída e a intervenção do tenente Seixas foi considerada excessiva e lesiva para o Estado português. Terá sido essa, juntamente com a omissão sobre o número de refugiados das Russianas, que originou a penalização de dois meses de suspensão e a passagem compulsiva à reforma.
Segundo as memórias dos seus netos, responsabilizou-se pela alimentação dos refugiados republicanos da herdade das Russianas, pelo facto de não serem abastecidos pelo governo português, como aconteceu com o grupo da herdade da Coitadinha. O número dos refugiados republicanos em Barrancos, embora não se conheça o valor exacto, terá atingido mais de 1020 pessoas. A estas, juntaram cerca de 450, no porto de Lisboa, provenientes de outros lugares do país.
A sua acção é hoje valorizada pelos descendentes dos refugiados espanhóis que salvou, assim como pelas autoridades espanholas, através da inauguração de um monumento, em 2010, em Oliva de la Frontera. A sociedade civil espanhola homenageou-o através da emissão de um selo comemorativo. Também em Portugal a sua actividade foi reconhecida logo em 1938, como demonstra o agradecimento que a Sociedade Capricho Musical Safarense lhe enviou quando foi readmitido na Guarda Fiscal. Em Março de 2015 a Câmara Municipal de Barrancos inaugurou o Largo Tenente António Augusto de Seixas e um monumento comemorativo, para assinalar a humanidade e a solidariedade como valores para as gerações futuras.
A sua acção valeu-lhe dois meses de inactividade e a passagem compulsiva à reforma. No entanto, a Portaria de 4 de Janeiro de Janeiro de 1938 reintegrou o Tenente Seixas na Guarda Fiscal. Foi nomeado comandante do Batalhão nº 1 da secção de Sines, até à sua exoneração em 20 de Junho de 1942.
Em Sines além de desempenhar a sua actividade profissional, foi presidente da Comissão Local das Comemorações dos Centenários, em 1940-1941, assim como foi nomeado vice-presidente da Câmara Municipal de Sines em 1941, tendo tomado posse no Governo Civil de Setúbal no dia 29 de Maio de 1941. Em 31 de Maio o Presidente da Câmara informou o Governador Civil que delegara no vice-presidente as competências de autoridade policial do concelho. Era também o Tenente Seixas o responsável pela Mocidade Portuguesa em Sines, que se sedeava no Castelo. Nessa qualidade, procurou recolher fundos para o fardamento das crianças cujos pais não dispusessem de meios para fazê-lo. Num ofício à Câmara Municipal em 1941, pedia apoio para a aquisição de dez fardas para dez meninos, que seriam escolhidos entre os mais pequeninos e os mais pobres. Foi também dinamizador da Legião Portuguesa em Sines e Santiago do Cacém, fotografando as suas actividades. Em 1938 recebeu um louvor por se ter prestado a dar instrução da Legião Portuguesa.
Este cometimento com o Estado Novo não impediu o seu envolvimento nas causas sociais e com a comunidade local. Em 1941, aquando do ciclone de Fevereiro, que destruiu várias embarcações e danificou vários edifícios, como o do Hospital, doou dez escudos para as vítimas do ciclone de 1941, a maior doação particular realizada. No mesmo ano presidiu à Comissão Concelhia das Comemorações Centenárias. Fazia também parte das comissões de festas de Nossa Senhora das Salas e é possível que tenha sido irmão da Santa Casa da Misericórdia de Sines, cuja principal actividade era a administração do Hospital.
António Augusto de Seixas desenvolveu várias actividades económicas no período final da sua vida, em Sines. Foi sócio gerente da Sociedade Cerâmica do Sul do Sado nos anos 40. Em Sines foi também armador e industrial da pesca, e, nessa qualidade, fez parte da Casa dos Pescadores de Sines. Tinha também uma serração em sociedade com Jacinto Farto, em 1949, localizada em São Marcos. Foi em São Marcos o local da construção do casco da traineira Laidinha. Após a sua morte, a esposa Esmeralda de Seixas continuou a trabalhar na serração, no escritório, e manteve a actividade da indústria da pesca. Os habitantes de Sines ainda a recordam com saudade.
Uma faceta sua menos conhecida é a de fotógrafo amador. Além de documentar a sua actividade profissional, retratando vários postos da Guarda Fiscal onde trabalhou, também documentou a vida quotidiana em Sines. António Augusto de Seixas fotografou os jogos de futebol entre mascarados no Carnaval; as procissões de Nossa Senhora das Salas, em Agosto; as actividades desportivas organizadas pelo Padre Carlos Augusto Henriques e as da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa; as actividades na Calheta, o dia-a-dia da no posto da Guarda Fiscal em Sines. Foi também a sua lente que captou os efeitos do ciclone na Praia de Sines, hoje documentos imprescindíveis para conhecer esse acontecimento.
Quando faleceu no Hospital Militar, em Lisboa, tinha vivido uma vida preenchida e rica, num século XX contraditório e violento. Também a sua vida não foi isenta de contradições, um homem do seu tempo, cuja vida se poderia sintetizar na máxima do filósofo espanhol Ortega y Gasset: O homem é o homem e a sua circunstância.

Locais

Montalegre, Barrancos, Sines

status legal

funções, ocupações e atividades

Mandatos/Fontes de autoridade

Estruturas internas/genealogia

contexto geral

Área de relacionamento

Entidade relacionada

Santa Casa da Misericórdia de Sines (1516-)

Identificador da entidade relacionada

PT-CMSNS-SCMSN

Categoria da relação

associative

Tipo de relação

Santa Casa da Misericórdia de Sines is the associate of António Augusto de Seixas

Datas da relação

Descrição da relação

Zona do controlo

Identificador da descrição

PT-MUN-AAS

Identificador da instituição

PT-MNSNS

Regras ou convenções utilizadas

Orientações para a Descrição Arquivística. 2ª versão. Lisboa: Direcção Geral de Arquivos, 2007 (II Parte). Disponível em http://antt.dglab.gov.pt/wp-content/uploads/sites/17/2008/09/oda1_2_3.pdf

Estatuto

Draft

Nível de detalhe

Partial

Datas de criação, revisão ou eliminação

Descrição criada em 2015/07/23. Revisão em 2016/01/29.

Línguas e escritas

  • português

Script(s)

  • latim

Fontes

Simões, Maria Dulce Antunes - Barrancos na Encruzilhada da Guerra Civil de Espanha: memórias e testemunhos, 1936. Barrancos: Câmara Municipal, 2007.

Notas de manutenção

Descrição elaborada por Sandra Patrício, Arquivo Municipal de Sines.

Promotor

Executante

Parceiros

Co-Financiamento